Algumas vezes caímos na mesmice.

 

Mesmice. Ação de fazer, constantemente ou repetitivamente, a mesma coisa, seja ato ou ação.

E foi assim que me senti ontem, já de madrugada e hoje, pela manhã inteira. Daí, oportuno falar disso.

Repeti, ainda na juventude, algumas bobagens de maneira que hoje entendo como cansativas: ir sempre nas mesmas baladas de péssima qualidade, tirar rachas alucinantes de moto madrugada afora, não percebendo que a questão era apenas emoção e adrenalina. E várias outras bobagens.

Já a idade faz entender que eu, ao menos, ia sempre no rumo das emoções e da adrenalina sendo despejada pelo meu corpo. Hoje, na verdade, tudo acontece diferente.

Adrenalina de menos. Emoção demais.

Das bobagens que cometi e que hoje já reconsidero serem repensadas, vou com dedicação na questão das relações apaixonadas. Ou das relações de estima, ou carinho, ou afeto. Vou percebendo que ao meu redor pessoas já não sabem ou pouco entendem do que seja isso tudo.

Sinto saudades de um tempo passado, onde vivi e vivenciei tais “coisas”. Talvez por me ver sempre cercado por um grupo estranho, onde imperavam conceitos igualmente estranhos. Onde dizer e expressar carinho não fosse interpretado como “quero te comer”. Ou igualmente um comentário simples… “preciso falar contigo” igualmente não era interpretado como iminência de estupro. Havia um certo tom de sinceridade em expressar e em entender. Algo que, bestamente, me acompanhou até os dias atuais.

Tive uma educação e uma formação, seja em casa, seja nas ruas, que permitia esse exercício delicioso e verdadeiro. Conforme comentei várias vezes aqui em Hellnião da Vitória e adjacências, que a moçada anda amando tudo. Sorvete, chocolate, vodka, cerveja, cachorro, gato… e não duvido que alguns já amem postes e vasos sanitários. Anda muito fácil amar. Chegando mesmo a causar estranheza quando eu expresso que GOSTO de algo ao invés de AMAR.

Hábitos imbecis os meus… sempre amei pessoas e não coisas. Num tempo, por exemplo, eu GOSTAVA de assistir o programa do Jô Soares. E mesmo tendo sido vizinho dele por alguns anos, em Sampa, não amei o cara. Apenas GOSTAVA. Sorvete mesmo, eu curtia, curto, gosto. Mas não lembro de AMAR ou VENERAR sorvete. Não amo livros, não amo músicas. Mas me percebo amando conforme ouço ou leio algo que fala diretamente sobre AMOR.

Em momentos, passados, isso de aplicar AMAR proporcionou relações maravilhosas em minha vida. Que, infelizmente, se desgastaram, se perderam. Mas não perderam em AMOR. Amor, a vida me prova em cada dia duramente atravessado, é algo que permanece. Fica, é insistente. Amo, por exemplo, minhas filhas. E fora uma encrenca ou outra, isso é retribuído. Em conversas, ao vivo ou não, minha ex-mulher e eu comentamos disso de AMAR. O lance sempre permanece.

Chocolate, gato, cachorro e vaso sanitário, por exemplo, não. Conforme amamos chocolate, damos a mesma dimensão quando afirmamos amar alguém. Basta comer e pronto… joga-se fora papel. Amor não vai embora conforme damos descarga. Gatos e cachorros não amam, mas nos são fiéis, próximos. Eu mesmo nunca fiz AMOR com cães e gatos… ou qualquer bicho distante do conceito do HUMANO.

Hellnião da Vitória tem demonstrado, comprovado e contra-provado o oposto disso. Se caso eu me aproxime de alguém, não o faço pela questão fundamental de expressar algo que seja: amizade, carinho, afeição, amor. Mas faço pela questão do chocolate, do vaso sanitário, do gato e do cachorro. Ou, conforme comentei horas atrás, pela questão utilitária em si – feito panela, copo, liquidificador, enfeite na estante. Aqui, pessoas te amam pelo fato de cerveja na mesa. Amam mais pela utilidade do que pela estrita intenção de construir uma relação – esquecem que AMIGOS AMAM. Não se dá efeito á amizade sem um lastro mínimo de amor, afeto, carinho.

Três experiências dizem disso. Fosse uma, por certo seria fatalidade. Fossem duas, azar. Já uma terceira ocorrência indica algo mais próximo de teoria: ou sou eu o errado ou vivo na realidade num grupo social que pouco entende ou sabe disso tudo de amar. Errado o meu passado deixa demonstrado que não fui. Mas o presente tem sido cruel em trazer pessoas que contam disso tudo.

Pessoas que foram e são usadas, pisadas, maltratadas, humilhadas. E que amam chocolate, amam vodka, amam gatos, amam cachorros. Esquecendo um básico: interagir é humano. Expressar não é do mundo dos animais, sendo único no homem. E vodka, chocolate… são bons enquanto rola um beijo gostoso, um toque mútuo. Chocolate ensina muito pouco quando se está sózinho. Não é viver, é apenas comer chocolate.

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