Para alguns a vida é só uma apresentação em PowerPoint

 

Hoje sou surpreendido por um email. Surpreendido dado o remetente. Não muito surprêso por trazer um anexo muito comum e totalmente sacudo: apresentação em PowerPoint. Fosse eu um não-ateu, gostaria de poder praguejar e encomendar almas ao Exmo. Sr. Diabo de plantão – almas das criaturas que criam e se dão ao luxo de reenviar tais bobagens.

Daquelas apresentações manjadinhas, chatas, do tipo auto-ajuda. Com musiquinha tôsca e sem tempêro. Insôssa. Que ocupa tua tela, faz perder tempo. E nem ao menos inspira para uma boa sentada num vaso sanitário.

Pior… cai na tua frente como se, em algum momento, houvesse alguma necessidade de ajuda do criador da apresentação ou igualmente ajuda da criatura que enviou a porcariada toda – formalizada pelo envio do conjunto grotesco para minha caixa de email.

Fico surprêso com conteúdos diversos enviados prá mim ao perceber que tratam de questões com as quais eu não tenho nenhum litígio. Hoje, em particular, o tema foi “Saúde Mental”. Claro, o autor do conteúdo é um profissional de alto gabarito e pessoa séria. Mas a pessoa que enviou deveria ler mais detidamente e aplicar em sua própria vida o que está postulado lá, ao invés de encaminhar prá mim.

Vou tentar dar uma resumida básica no troço. Saúde mental, segundo o ponto de vista do fulano, é se assumir em atitudes comuns diante não apenas do comum – mas ser comum diante do incomum. O autor discorre de forma muito clara e interessante sobre a questão, e ao final deixa claro que o gostoso mesmo se dá diante da atitude em fazermos o que temos prazer e vontade – reside aí o verdadeiro ato de praticar o VIVER. Deixa lindamente expresso que fazer o oposto – anular vontades e desejos – empurra á banalização dessa “coisa” preciosa = A VIDA.

Cá entre nós – que puta novidade isso. Quem diria!

Interessante, e muito, é que a remetente do lance todo é das pessoas que abriram mão, durante a vida toda, de se permitirem PRAZER. Acho que uma pessoa que envia um conteúdo que contenha exemplos assim: Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski… tá pedindo butinada. Na bôca. Pois notadamente sei do quanto tal remetente é ignorante diante de tais nomes. Conhece tais nomes, quando muito, graças ao Google ou Wikipedia… e olha lá.

Li no passado e atualmente permaneço lendo (e não estudando) Nietzsche por força de um curso de Filosofia. Igualmente li e leio Fernando Pessoa pela beleza em unir palavras e lhes dar sentido. Pude apreciar de perto obras de Van Gogh e, diante do contato, situar seu momento histórico, pude me permitir ler sua biografia detidamente, pude apreciar a estética contida na expressão de sua arte. Wittgenstein, igualmente li e com certeza será mais detidamente estudado num grau acima no meu curso de Filosofia. Cecília Meireles, uau… aos 14 anos me foi apresentada e até hoje fico deliciado com a beleza de sua criação. Maiakovski traduzido já é algo fantástico… e entristeço conforme percebo que sendo neto de russo… nada sei desse idioma.

Imagino, assim, o quanto de imbecilidade existe em alguém que perca tempo postando, prá mim, um email com conteúdo que não lhe é próximo de alguma compreensão ou entendimento. E assim imagino por haver conhecido o bastante prá saber que todos os nomes acima trariam mais mistério do que alguma admiração. Bastasse ler Nietzsche para já haver enlouquecido e estar internada em algum asilo de loucos…

Frequentei a casa dessa pessoa por vários anos. Prá perceber a total ausência de livros – seja em estante, ou jogado num canto. Sejam, também, quais fossem os temas: filosofia, artes, literatura brasileira, literatura universal. Aliás, vale comentar, havia profusão, sim, de revistas Boa Forma. Acredito que dificilmente alguém poderia ler, entender e assimilar em 5 ou 6 meses ao menos as noções básicas dos trabalhos dos nomes citados. Nietzsche exige estudos muito avançados e detidos para permitir apenas um arranhão no seu conteúdo. Eu mesmo confesso: quanto mais leio, mais confuso fico.

Igualmente, imagino a causa disso, enviar um email com tal conteúdo, justamente para mim. Imagino que uma pessoa criada dentro de uma religião castradora e que sempre cerceia a liberdade individual nas questões de leituras e contatos com o mundo não imagine sequer o que enviou. Mais que imaginar, tenho certeza. Pois partilhamos algo próximo de uma relação por muito tempo. Anos. E todas situações de vida que lhe surgiram sempre foram tratadas assim = NÃO PODE, NÃO POSSO.

Será que nos últimos meses houve alguma mudança? Contato com alguma obra de Maiakovski, por exemplo. Algo que permitisse deixar de jogar Tíbia no computador e descobrir que fora daquela pequena tela existe um mundo. Uau. Pode ser. Ou a visão de uma obra de Van Gogh lhe permitiu contato com as faces da insanidade humana?

Será que igualmente ela se descobriu poeta ou escritora conforme leu Cecilia Meireles ou Fernando Pessoa? Seria maravilhoso. Mas acredito que não, pois mesmo diante das mais belas e verdadeiras palavras e expressões de amor, paixão, carinho… sempre houve a ausência de reações mais… livres, soltas. Pois o efeito castrador da religião corroeu e destruiu os sentimentos mais básicos. E afirmo isso por viver com uma pessoa da mesma religião, cuja família toda pratica a mesma fé. E todos incapazes de demonstrar emoções. Seja em qual for a medida ou situação.

Os personagens citados – excetuando Van Gogh -  foram, ironicamente, contrários aos princípios que ela defende. Seja na religião ou dentro do aspecto social das atividades que exerceram. Nietzsche, por exemplo, não teria escrito NADA caso fosse Testemunha de Jeová. Igualmente Fernando Pessoa ou Cecília Meireles. E já imagino um Maiakovski TJ. Wittgenstein TJ, imaginem, seria uma piração cósmica.

Já Van Gogh, diante das teorias atuais sobre o personagem… bom, sendo louco e fora da casinha… até combinariam… ahahahahaha…

Moça, faz assim. Leia, estude. Assimile conhecimento. Páginas garimpadas pela internet não são representação próxima do mundo. O mundo não é internet. Motivo pelo qual os livros e obras de arte permanecem e irão permanecer. Reproduções não tem o valor das cópias, no caso de Van Gogh… contato verdadeiro, apenas quando se permitem notar nuances de suas pinceladas… as imperfeições dos traços sempre existem ao vivo… e permitem APRENDER e APREENDER a obra. Tem estética na jogada. Coisa que computador algum pode se dar ao luxo de exibir. Nessa hora… Google serve prá muito pouco.

Certo, estude. Leia. Descubra por exemplo, Zaratustra. Claro, imagino que Nietzsche seja algo muito… pecaminoso e diabólico para ser lido, entendido ou assimilado. Talvez até proibido mesmo. Afinal, Filosofia é o exercício humano do pensar e questionar. E sabemos que TJ’s não se permitem o questionamento. Praticamos muito isso lembra? Foram milhares de perguntas sem respostas. Foram muitos os silêncios mortais e profundos. Parte de nossa relação foi uma piração… algo parecido com uma tela de Van Gogh sem tinta ou rabiscos… uma tela em branco, prá ser bem sincero. Ou um livro sem conteúdo impresso… capa bonita, folhas impecavelmente brancas e imaculadas. Parecidos com tua própria vida: rica em ausências, pobre em conteúdo. Tá certo, eu sei… vc tem um filho. Mas até mesmo môscas se reproduzem, não existe conhecimento algum no “fazer filho”. Parte dos filhos que circulam pelo nosso mundinho consumindo parte do MEU oxigênio, por exemplo, mais tem semelhança com pés de alface do que semelhança com os viventes racionais. E não existe ciência complexa nisso de fazer filho. Eu mesmo, tenho alguns rebentos circulando pela superfície do planeta. Prova, quando muito, que sei trepar e foder direitinho, mais nada.

Conhecimento existe em criar o filho e lhe permitir livre-arbitrio verdadeiro. Sem manipulações aterrorizantes, sem inferno, sem paraíso. Sem divindades, sem terrorismos emocionais. Sem deus vigiando e punindo. Sem capêta fazendo o mesmo nos momentos onde deus não está. Manipulações são lances problemáticos.

Manipulações que resultem nisso que é vivido por voce desde fevereiro de 2008: fez o que quis mas fez o proibido. Por força não da tua vontade ou determinação existe ali a conduta errada. Conduta julgada errada por grupos que aterrorizam e aniquilam emocionalmente as pessoas. Ideologias que premiam algum tipo de condutor ou pastor de ovelhas. Quando a beleza do VIVER reside justamente no rumo oposto. Ir prá onde se bem escolhe. Gostoso mesmo é pilotar a própria vida. E mandar o motorista se foder.

Não tenho saúde mental. Daí, penso. E pratico o que está escrito no teu email: não assisto TV por perceber ali a banalidade e um grau visível de dominação. Não ouço rádio pois não tenho tempo prá isso.

Não, não passo minhas horas jogando Tíbia, pois isso não me traz conhecimento. Mas desperdiço tempo, sim, com essa galera citada no email. Nietzsche. Fernando Pessoa. Maiakovski. E muito mais. Tem Rimbaud, Baudelaire, Goethe. Admiro Aldemir Martins. Admiro Pablo Picasso.

Leio, sempre que posso e o tempo permita,  Espinoza. Ah, e sou fã do cara. Adoro Sartre. Valendo comentar que, aos mortos, prefiro os que ainda fedem. Os que já viraram ossos amontoados ou pó de cálcio… bom, leio por respeito e pura determinação de aprendizado pessoal.

Interajo com pessoas e faço disso uma prática. Aprendo no dia-a-dia neste exercício do PENSAR. Não me atemorizo com ameaças divinas e menos ainda com as ameaças demoníacas. Sejam quais forem elas. Ao contrário, algumas das “ameaças divinas” me provocam risos. Me dão diversão. Até mesmo com as datas de fim do mundo… percebeu como nenhuma delas vingou até hoje?

Estudo, sim, a beleza do mundo e não me preocupo com a mortalidade do homem. Se bem que, conforme considero a morte de alguns, não posso negar: sim, fico feliz.

Não me interessa o que ocorre após a morte, pois certamente não estarei vivo… e enquanto eu estiver vivo, lerei, estudarei, serei feliz nas minhas determinações. Mesmo nos momentos onde sofro por questões de relacionamentos, descubro certo prazer e felicidade: a confirmação de que, infelizmente, perdi tempo com pessoas banais, imbecis e idiotas. Pessoas que perdem tempo ANEXANDO conteúdo em email ao invés de se darem o trabalho de, pelo menos, ESCREVER algo que lhes inspire no rumo de CRIAR.

Certeza eu tenho uma única. E minha. Acho minha loucura e insanidade um presente da vida. Graças a esta loucura vou somando pessoas que JAMAIS seriam próximas caso eu fosse são e normal igual voce, por ex.

Na vida, temos diferenciais: eu vivo e sou pensante. Voce é apenas um personagem num jogo bobo e duvidosamente divertido. Diversão é ler Heinrich Heine, por exemplo. Divertido é garimpar um livro pela internet, num sebo. E esperar pelo bicho chegando prá ser lido, imaginando o quanto de prazer ele proporcionou ao dono anterior.

Só isso. O resto… bom, é a tua parte: SILÊNCIO… acertei?

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