Hoje sou surpreendido por um email. Surpreendido dado o remetente. Não muito surprêso por trazer um anexo muito comum e totalmente sacudo: apresentação em PowerPoint.
Daquelas apresentações manjadinhas, chatas, do tipo auto-ajuda. Como se em algum momento eu precisasse da ajuda do criador da apresentação, ou da ajuda do cidadão que elaborou o conteúdo da apresentação. Ou mesmo da opinião da remetente – formalizada pelo envio do conjunto grotesco para minha caixa de email.
Fico surprêso com conteúdos diversos enviados prá mim ao perceber que tratam de questões com as quais eu não tenho nenhum litígio. Hoje, em particular, o tema foi “Saúde Mental”. Claro, o autor do conteúdo é um profissional de alto gabarito e pessoa séria. Mas a pessoa que enviou deveria ler mais detidamente e aplicar em sua própria vida o que está postulado lá, ao invés de encaminhar prá mim.
Vou tentar dar uma resumida básica no troço. Saúde mental, segundo o ponto de vista do fulano, é se assumir em atitudes comuns diante não apenas do comum – mas ser comum diante do incomum. O autor discorre de forma muito clara e interessante sobre a questão, e ao final deixa claro que o gostoso mesmo se dá diante da atitude em fazermos o que temos prazer e vontade – reside aí o verdadeiro ato de praticar o VIVER. Deixa lindamente expresso que fazer o oposto – anular vontades e desejos – empurra á banalização dessa “coisa” preciosa = A VIDA.
Interessante, e muito, é que a remetente do lance todo é das pessoas que abriram mão, durante a vida toda, de se permitirem PRAZER. Acho irônico uma pessoa enviar um conteúdo que contenha exemplos assim:
Nietzsche,Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.
Li no passado e atualmente permaneço estudando Nietzsche por força de um curso de Filosofia. Igualmente li e leio Fernando Pessoa pela beleza em unir palavras e lhes dar sentido. Pude apreciar de perto obras de Van Gogh e, diante do contato, situar seu momento histórico, pude me permitir ler sua biografia detidamente, pude apreciar a estética contida na expressão de sua arte. Wittgenstein, igualmente li e com certeza será mais detidamente estudado num grau acima no meu curso de Filosofia. Cecília Meireles, uau… aos 16 anos me foi apresentada e até hoje fico deliciado com a beleza de sua criação. Maiakovski traduzido já é algo fantástico… e entristeço conforme percebo que sendo neto de russo… nada sei desse idioma.
Imagino, assim, o quanto de imbecilidade existe em alguém que perca tempo postando, prá mim, um email com conteúdo que não lhe é próximo de alguma compreensão. E assim imagino por haver conhecido o bastante prá saber que todos os nomes acima trariam mais mistério do que alguma admiração. Bastasse ler Nietzsche para já haver enlouquecido e estar internada em algum asilo de loucos…
Frequentei a casa dessa pessoa por vários anos. Prá perceber a total ausência de livros: filosofia, artes, literatura brasileira, literatura universal. Acredito que dificilmente alguém poderia ler, entender e assimilar em 5 ou 6 meses ao menos as noções básicas dos trabalhos dos nomes citados. Nietzsche exige estudos muito avançados e detidos para permitir apenas um arranhão no seu conteúdo.
Igualmente, imagino a causa disso, enviar um email com tal conteúdo, justamente para mim. Imagino que uma pessoa criada dentro de uma religião castradora e que sempre cerceia a liberdade individual nas questões de leituras e contatos com o mundo não imagine sequer o que enviou. Mais que imaginar, tenho certeza. Pois partilhamos algo próximo de uma relação por muito tempo. Anos. E todas situações de vida que lhe surgiram sempre foram tratadas assim = NÃO PODE, NÃO POSSO.
Será que nos últimos 5 ou 6 meses houve alguma mudança? Contato com alguma obra de Maiakovski, por exemplo. Algo que permitisse a ela deixar de jogar Tíbia no computador e descobrir que fora daquela pequena tela existe um mundo. Uau. Pode ser.
Será que igualmente ela se descobriu poeta ou escritora conforme leu Cecilia Meireles ou Fernando Pessoa? Seria maravilhoso. Mas acredito que não, pois mesmo diante das mais belas e verdadeiras palavras e expressões de amor, paixão, carinho… sempre houve a ausência de reações mais… livres, soltas. Pois o efeito castrador da religião corroeu e destruiu os sentimentos mais básicos. E afirmo isso por viver com uma pessoa da mesma religião, cuja família toda pratica a mesma fé. E todos incapazes de demonstrar emoções. Seja em qual for a medida ou situação.
Os personagens citados – excetuando Van Gogh - foram, ironicamente, contrários aos princípios que ela defende. Seja na religião ou dentro do aspecto social das atividades que exerceram. Nietzsche, por exemplo, não teria escrito NADA caso fosse Testemunha de Jeová. Igualmente Fernando Pessoa ou Cecília Meireles. E já imagino um Maiakovski TJ. Wittgenstein TJ, imaginem, seria uma piração cósmica.
Moça, faz assim. Leia, estude. Assimile conhecimento. Páginas garimpadas pela internet não são representação próxima do mundo. Motivo pelo qual os livros e obras de arte permanecem e irão permanecer. Reproduções não tem o valor das cópias, no caso de Van Gogh… contato verdadeiro, apenas quando se permitem notar nuances de suas pinceladas… as imperfeições dos traços sempre existem ao vivo… e permitem APRENDER e APREENDER a obra. Tem estética na jogada. Coisa que computador algum pode se dar ao luxo de exibir.
Certo, estude. Leia. Descubra por exemplo, Zaratustra. Claro, imagino que Nietzsche seja algo muito… pecaminoso e diabólico para ser lido, entendido ou assimilado. Talvez até proibido mesmo. Afinal, Filosofia é o exercício humano do pensar e questionar. E sabemos que TJ não se permitem o questionamento. Praticamos muito isso lembra? Foram milhares de perguntas sem respostas. Foram muitos os silêncios mortais e profundos. Parte de nossa relação foi uma piração… algo parecido com uma tela de Van Gogh sem tinta ou rabiscos… uma tela em branco, prá ser bem sincero. Ou um livro sem conteúdo impresso… capa bonita, folhas impecavelmente brancas e imaculadas. Parecidos com tua própria vida: rica em ausências, pobre em conteúdo. Tá certo, eu sei… vc tem um filho. Mas até mesmo môscas se reproduzem, não existe conhecimento algum no “fazer filho”. Conhecimento existe em criar o filho e lhe permitir livre-arbitrio verdadeiro. Sem manipulações aterrorizantes, sem inferno, sem paraíso. Sem divindades, sem terrorismos emocionais.
Manipulações que resultem nisso que é vivido por voce desde fevereiro de 2008: fez o que quis mas fez o proibido. Por força não da tua vontade ou determinação existe ali a conduta errada. Conduta julgada errada por grupos que aterrorizam e aniquilam emocionalmente as pessoas.
Não tenho saúde mental. Daí, penso. E pratico o que está escrito no teu email: não assisto TV por perceber ali a banalidade.
Não, não passo minhas horas jogando Tíbia, pois isso não me traz conhecimento. Sim, leio Nietzsche. E Fernando Pessoa. E Maiakovski. E muito mais. Tem Rimbaud, Baudelaire, Goethe. Admiro Aldemir Martins. Admiro Pablo Picasso. Estudo Espinoza e sou fã do cara. Adoro Sartre.
Interajo com pessoas e faço disso uma prática. Aprendo no dia-a-dia neste exercício do PENSAR. Não me atemorizo com ameaças divinas, sejam quais forem elas. Até mesmo com as datas de fim do mundo… percebeu como nenhuma delas vingou até hoje? Estudo, sim, a beleza do mundo e não me preocupo com a mortalidade do homem. Não me interessa o que ocorre após a morte, pois certamente não estarei vivo… e enquanto eu estiver vivo, lerei, estudarei, serei feliz nas minhas determinações. Mesmo nos momentos onde sofro por questões de relacionamentos, descubro certo prazer e felicidade: a confirmação de que, infelizmente, perdi tempo com pessoas banais. Que perdem tempo ANEXANDO conteúdo em email ao invés de se darem o trabalho de, pelo menos, ESCREVER.
Certeza eu tenho uma única. E minha. Acho minha loucura e insanidade um presente da vida. Graças a esta loucura vou somando pessoas que JAMAIS seriam próximas caso eu fosse são e normal igual voce, por ex.
Na vida, temos diferenciais: eu vivo e sou pensante. Voce é apenas um personagem num jogo bobo e duvidosamente divertido. Diversão é ler Heinrich Heine, por exemplo. Divertido é garimpar um livro pela internet, num sebo. E esperar pelo bicho chegando prá ser lido, imaginando o quanto de prazer ele proporcionou ao dono anterior.
Só isso. O resto… bom, é a tua parte: SILÊNCIO… acertei?
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